Blog do Alexandre Schneider

Verbos que aprendemos no caminho

31/10/2009 · 1 Comentário

Escrevo esse post em terras curitibocas, como costuma dizer uma amiga que aqui viveu. Curitiba é cidade familiar, entranhada na memória.

Aqui vivi por um ano; aqui vivem meus pais; aqui vivem meus irmãos. E aqui retomo assunto que discuti semanas atrás no seminário promovido pela vereadora Mara Gabrilli na câmara municipal de São Paulo.

Pensar e promover educação inclusiva. Mais do que um desafio: uma realidade que nos visita, que nos pertence e que nos pede passagem. E nos pede porque maior, em significado. Porque somos nós, ao não prestar atenção ou ao manter o pensamento deficiente, que seremos atropelados; pela força e pela determinação dos que se sabem detentores do direito. De ir, vir. De estar. E ser.

O fato de conviver com a realidade excludente e limítrofe do Estado talvez tenha contribuído para um olhar mais crítico. Meu irmão mais velho foi diagnosticado com deficiência intelectual aos quatro anos, quando morávamos em Recife. À época, a única instituição que promovia informação, cuidado e o amparo às famílias e pessoas com deficiência era a APAE e por isso nos mudamos para São Paulo.

Anos depois, um de meus irmãos teve seu primeiro filho diagnosticado com Williams, uma síndrome provocada por anomalia genética de um determinado cromossomo e que além de algumas restrições de compreensão também provoca problemas cardíacos; caso do meu sobrinho, que foi operado ainda recém-nascido, no Pequeno Príncipe, hospital pediátrico que hoje, aqui em Curitiba, visitei.

Administrado por uma entidade filantrópica e com mais da metade de seus atendimentos via Sistema único de Saúde (SUS), o Pequeno Príncipe enfrenta uma dificuldade que infelizmente é comum às instituições: a falta de recursos. O SUS não provê o suficiente e cabe aos que aqui estão, meu irmão entre eles, captar o que falta, o que é necessário e o que é (deveria ser) um direito: dinheiro para manter os médicos, enfermeiras, instrumentos, remédios e condições para que as crianças que precisam sejam operadas, cuidadas e assistidas.

Participo de uma realidade parecida. Como Secretário de Educação em São Paulo coordeno a equipe que desenvolve e implanta nas escolas municipais um dos principais programas (e desafios) desta década: o de promover a educação inclusiva. Adaptar as escolas, formar professores, produzir conteúdo e permitir às crianças o acesso a uma educação que seja pública, inclusiva, digna.

E é sem qualquer modéstia, sem qualquer vaidade (sentimentos tão menores frente ao que falamos) que digo que me orgulho de fazer parte deste trabalho. Mesmo. Não temos 100% das escolas adaptadas e ainda não atingimos o marco de atender 100% das crianças que precisam mas o trabalho existe, acontece, é real. E tem resultados.

Embora tenha oficialmente estruturado sua primeira escola para portadores de deficiência em 1951, a administração só tem registros de atendimentos a alunos com algum tipo de deficiência a partir 1993, ano que em foi decretada a criação das Salas de Atendimento aos Portadores de Necessidades Especiais. E de lá pra cá evoluímos. Que bom.

Entre 93 e 2004 foram criadas 86 salas especiais mas penso que foi mesmo a partir de 2005 que pudemos encarar a questão com um olhar mais abrangente. Desde então, dobramos o número de crianças atendidas: de 7 para 14 mil, implementamos 13 Centros de Apoio e Acompanhamento à Inclusão – CEFAI – um em cada Diretoria de Educação e designamos Professores de Apoio e Acompanhamento a Inclusão, que realizam apoio pedagógico itinerante à comunidade educativa atendendo pais, alunos e professores.

Ampliamos as salas de apoio e acompanhamento à Inclusão; hoje já são mais de 150 e pela primeira vez na administração contratamos 1000 estagiários de pedagogia para atuar junto ao professor da classe comum com o objetivo de atender alunos com deficiência e transtorno global do desenvolvimento. Além disso, contratamos intérpretes e realizamos cursos de LIBRAS para professores e funcionários. Também promovemos mais de 6000 horas de aulas de formação para professores.

Numa rede com quase 1500 escolas, assim como em outros edifícios públicos e privados, ainda enfrentamos os desafios de engenharia: não é fácil reformar todas as escolas mas isso também não nos desestimula. Todas as escolas erguidas a partir de 2005, mais de 250, foram projetadas obedecendo todas as normas e especificações de acessibilidade. E os estudos para adaptar as que existem são, estão, sempre em pauta. O desafio não é pequeno. E definir prioridades também não é fácil. Mas é importante.

Entre as nossas principais metas estão a ampliação do TEG, o Transporte Escolar Gratuito, de forma a atender 100% das crianças com deficiência e também prover o atendimento no contraturno escolar, os seja, as crianças irão às aulas em escolas regulares e depois (ou antes, no caso dos alunos que frequentarem classes regulares à tarde) serão encaminhadas para entidades conveniadas para atividades extracurriculares e de suporte pedagógico ou mesmo psicológico. Também vamos contratar profissionais para cuidar das crianças com deficiência grave na sala de aula.

Nossas publicações sobre o tema estão disponíveis em todas as escolas, para todos os professores e também no site. Uma, inclusive, traz uma citação de Rubem Alves que tomo a liberdade de compartilhar. Fala sobre a criança que lida com a diferença:

” Ela lida com algo que dói muito: não é a diferença, em si mesma, mas o ar de espanto que a criança percebe nos olhos dos outros [...]

O medo dos olhos dos outros é sentimento universal. Todos gostaríamos de olhos mansos…

A diferença não é resolvida de forma triunfante, como na estória do Patinho Feio.

O que muda não é a diferença. São os olhos…”

Há pouco, conversando com meu irmão, pensando em como somos parecidos, em como nossos objetivos são parecidos: ambos dedicados, cada um a sua forma, a promover uma sociedade mais inclusiva, me dei conta do quanto cada um dos esforços e cada uma das conquistas dos meus pais, dos meus irmãos, do meu sobrinho e mesmo as minhas, modificaram e determinaram quem sou…

E tenho cada vez mais forte a convicção de que para estar à altura deste trabalho e desta secretaria é preciso exercer todos os dias e com muita atenção o verbo que me guia. Aprender, afinal, é verbo pra vida toda.

Nosso aprendizado sobre educação inclusiva ainda passa por conjugar mais, por compreender, por discernir, por dispor e disponibilizar. Passa por respeito e por vontade. E também por tempo… que nos permite entender a palavra dos que a pronunciam com outro tempo de entonação. O tempo que nos solicita o movimento e que nos acompanha e nos ensina a tatear o caminho. E o olhar.

Posso dizer que as escolas públicas de São Paulo buscam este tempo. E eu também.

 

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E valeu..

05/10/2009 · 5 Comentários

Difícil traduzir. Eram; são: professores músicos, artistas, poetas e chefs de cozinha. Professores sambistas, professores jardineiros e alunos repórteres. Professores e alunos ciclistas, professores e alunos bailarinos… professores pais, professores sopranos…

Nas quase 24 horas dos eventos do Valeu Professor tive o gosto e o privilégio de ser espectador de rara beleza.
Nossos mestres e muitos de nossos alunos fizeram das comemorações do início do mês da educação um dia muito especial. E importante.

Vivemos tempos digitais, virtuais. Estamos e somos Twitteres, Blogs, Fotologs, Spaces e Messengers.

A idéia desta Virada de Professores era retribuir, reconhecer e ressoar a importância e o valor de cada um e também, uma forma de lembrar a todos que além dos links, torpedos, replies, RTs e emails, somos gente; carne e voz e, quando juntos, somos muito mais.

Obrigado aos nossos mestres, obrigado aos nossos alunos. De fato, Valeu!

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pai, o que é que a língua faz?

01/10/2009 · Deixe um comentário

crianças de oito anos, como disse a calcanhoto, têm cores de frida khalo… hm, misturei partituras…? 

(risos)



impávidos colossos, os nossos filhos, diz uma amiga. por sinal, foi a filha dela que fez a pergunta que abre este post. estavam reunidos em casa de amigos professores discutindo a gramática; hífens, chapeuzinhos, plurais… e afinal, a língua mudou o conta-gotas? 



“mãaaaaae, a minha língua também vai?”



curiosa importância… e recorrência. sem nossos quês e quais, iríamos por onde? com quem? e até quando?


“a língua da boca não, minha filha. essa é outra: é a língua do mundo”



” e mundo tem língua, mamãe?”



e tem né?! tem língua, linguagem e professor. nesse nosso mundo, a vida vem com professor. 



que nos ensina os copos de suco; os lápis; as cores e seus nomes; as coisas e seus nomes; as regras, números, equações. e gestos; costumes; porquês. e então, de repente, a gente aprende que sol é estrela, que o tempo tem janela, que a lua não tem flores e que um mártir nos salvou. e descobre que os ângulos combinados penduram prédios nas nuvens arranhando pedaços do céu… e escolhe juntar banana e coca-cola e descobrir se é combustível. e aprende que os olhos do outro enxergam outros de outros pontos de vista. e que alguns escrevem melhor que pintam e outros adoram navios e uns preferem os bichos e dão aulas de circo. e que cuidam de nós, pais e que cuidam de nós, filhos.



e por isso,


por tudo isso

valeu professor!



 

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Diariamente

28/09/2009 · 1 Comentário

Para todas as coisas: dicionário
Para que fiquem prontas: paciência
Para dormir a fronha: madrigal
Para brincar na gangorra: dois

Os versos da música apenas para amenizar as palavras… ao menos assim espero… confesso que escrevo um tanto indignado.

O fato é que uma representação do PT contra a de entrega de leite e uma notícia mentirosa publicada pelo GT Educação do Movimento Nossa São Paulo dão-me a leve impressão de que estão querendo brincar de gangorra com a administração…

Puxa pra baixo o que não é seu? Então é assim que funciona?

Ora bolas, tenham mais clareza. Tenham, ao menos, mais informação…
O leite que compro para o meu filho custa em média R$ 8,54 por lata (400g). Nós entregamos o mesmo leite Ninho por R$ 8,22/kg – preço determinado em licitação pública realizada em Novembro de 2008.

Na administração passada o leite era mais caro, vinha de um fornecedor desconhecido e com um nome estranho: Popó. Nunca vi no supermercado…

O programa Leve Leite existe desde 92. São toneladas de leite que antes eram estocadas nas escolas. A entrega pelos Correios (empresa pública) é algo que deveria ter sido implantado até há mais tempo… Primeiro cuidamos da entrega dos uniformes e material escolar. E agora, finalmente, estamos resolvendo o que antes era um problema. Afinal, a escola existe para ensinar. E as crianças ali estão para aprender.
E antes, elas carregavam o leite…

Políticas públicas existem para as pessoas. Discursos vazios recheados de ilusionionismo servem a quê mesmo?

Sinceramente, não sei dizer… Fico com o que é público, correto e que modifica e melhora a vida das nossas crianças. E trabalho para isso; diariamente.

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Ô cridê, fala pra mãe!

21/09/2009 · 1 Comentário

Aos 14 anos eu não tinha Twitter, ou Blog… Aos 14 o mundo era outro. Aos 14 era o rádio.

A rotina em casa para mim e meus irmãos era rigorosa e os horários, rígidos; depois das 9 da noite a ordem era escovar os dentes e cama. Mas aos 14 os pensamentos tardam a nos deixar dormir e o jeito era esconder o rádio no travesseiro e cuidar para antena encontrar sintonia… Lembro que era um domingo; “não posso mais viver assim ao seu ladinho…” Ouvir uma música nova de bandas de rock brasileiro era como descobrir a América.

Hoje fui a Osasco conhecer uma creche e trocar experiências com a secretária Mazé. E por mais que estas duas coisas – a descoberta da música e a visita a Osasco – pareçam, num primeiro momento, abstrações desconexas do pensamento, queria dizer que para mim, são justamente o oposto: o mundo de hoje, com blog, twitter e internet pode nos aproximar mas nada substitui a força e a importância de conhecer, de perto, outras realidades.

Saí para o almoço com esta lembrança. Posto aqui a música que aprendi aos 14 e o registro de que precisamos interagir mais, ouvir o outro e entender que sempre há o que aprender com realidades distintas das nossas.

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