Escrevo esse post em terras curitibocas, como costuma dizer uma amiga que aqui viveu. Curitiba é cidade familiar, entranhada na memória.
Aqui vivi por um ano; aqui vivem meus pais; aqui vivem meus irmãos. E aqui retomo assunto que discuti semanas atrás no seminário promovido pela vereadora Mara Gabrilli na câmara municipal de São Paulo.
Pensar e promover educação inclusiva. Mais do que um desafio: uma realidade que nos visita, que nos pertence e que nos pede passagem. E nos pede porque maior, em significado. Porque somos nós, ao não prestar atenção ou ao manter o pensamento deficiente, que seremos atropelados; pela força e pela determinação dos que se sabem detentores do direito. De ir, vir. De estar. E ser.
O fato de conviver com a realidade excludente e limítrofe do Estado talvez tenha contribuído para um olhar mais crítico. Meu irmão mais velho foi diagnosticado com deficiência intelectual aos quatro anos, quando morávamos em Recife. À época, a única instituição que promovia informação, cuidado e o amparo às famílias e pessoas com deficiência era a APAE e por isso nos mudamos para São Paulo.
Anos depois, um de meus irmãos teve seu primeiro filho diagnosticado com Williams, uma síndrome provocada por anomalia genética de um determinado cromossomo e que além de algumas restrições de compreensão também provoca problemas cardíacos; caso do meu sobrinho, que foi operado ainda recém-nascido, no Pequeno Príncipe, hospital pediátrico que hoje, aqui em Curitiba, visitei.
Administrado por uma entidade filantrópica e com mais da metade de seus atendimentos via Sistema único de Saúde (SUS), o Pequeno Príncipe enfrenta uma dificuldade que infelizmente é comum às instituições: a falta de recursos. O SUS não provê o suficiente e cabe aos que aqui estão, meu irmão entre eles, captar o que falta, o que é necessário e o que é (deveria ser) um direito: dinheiro para manter os médicos, enfermeiras, instrumentos, remédios e condições para que as crianças que precisam sejam operadas, cuidadas e assistidas.
Participo de uma realidade parecida. Como Secretário de Educação em São Paulo coordeno a equipe que desenvolve e implanta nas escolas municipais um dos principais programas (e desafios) desta década: o de promover a educação inclusiva. Adaptar as escolas, formar professores, produzir conteúdo e permitir às crianças o acesso a uma educação que seja pública, inclusiva, digna.
E é sem qualquer modéstia, sem qualquer vaidade (sentimentos tão menores frente ao que falamos) que digo que me orgulho de fazer parte deste trabalho. Mesmo. Não temos 100% das escolas adaptadas e ainda não atingimos o marco de atender 100% das crianças que precisam mas o trabalho existe, acontece, é real. E tem resultados.
Embora tenha oficialmente estruturado sua primeira escola para portadores de deficiência em 1951, a administração só tem registros de atendimentos a alunos com algum tipo de deficiência a partir 1993, ano que em foi decretada a criação das Salas de Atendimento aos Portadores de Necessidades Especiais. E de lá pra cá evoluímos. Que bom.
Entre 93 e 2004 foram criadas 86 salas especiais mas penso que foi mesmo a partir de 2005 que pudemos encarar a questão com um olhar mais abrangente. Desde então, dobramos o número de crianças atendidas: de 7 para 14 mil, implementamos 13 Centros de Apoio e Acompanhamento à Inclusão – CEFAI – um em cada Diretoria de Educação e designamos Professores de Apoio e Acompanhamento a Inclusão, que realizam apoio pedagógico itinerante à comunidade educativa atendendo pais, alunos e professores.
Ampliamos as salas de apoio e acompanhamento à Inclusão; hoje já são mais de 150 e pela primeira vez na administração contratamos 1000 estagiários de pedagogia para atuar junto ao professor da classe comum com o objetivo de atender alunos com deficiência e transtorno global do desenvolvimento. Além disso, contratamos intérpretes e realizamos cursos de LIBRAS para professores e funcionários. Também promovemos mais de 6000 horas de aulas de formação para professores.
Numa rede com quase 1500 escolas, assim como em outros edifícios públicos e privados, ainda enfrentamos os desafios de engenharia: não é fácil reformar todas as escolas mas isso também não nos desestimula. Todas as escolas erguidas a partir de 2005, mais de 250, foram projetadas obedecendo todas as normas e especificações de acessibilidade. E os estudos para adaptar as que existem são, estão, sempre em pauta. O desafio não é pequeno. E definir prioridades também não é fácil. Mas é importante.
Entre as nossas principais metas estão a ampliação do TEG, o Transporte Escolar Gratuito, de forma a atender 100% das crianças com deficiência e também prover o atendimento no contraturno escolar, os seja, as crianças irão às aulas em escolas regulares e depois (ou antes, no caso dos alunos que frequentarem classes regulares à tarde) serão encaminhadas para entidades conveniadas para atividades extracurriculares e de suporte pedagógico ou mesmo psicológico. Também vamos contratar profissionais para cuidar das crianças com deficiência grave na sala de aula.
Nossas publicações sobre o tema estão disponíveis em todas as escolas, para todos os professores e também no site. Uma, inclusive, traz uma citação de Rubem Alves que tomo a liberdade de compartilhar. Fala sobre a criança que lida com a diferença:
” Ela lida com algo que dói muito: não é a diferença, em si mesma, mas o ar de espanto que a criança percebe nos olhos dos outros [...]
O medo dos olhos dos outros é sentimento universal. Todos gostaríamos de olhos mansos…
A diferença não é resolvida de forma triunfante, como na estória do Patinho Feio.
O que muda não é a diferença. São os olhos…”
Há pouco, conversando com meu irmão, pensando em como somos parecidos, em como nossos objetivos são parecidos: ambos dedicados, cada um a sua forma, a promover uma sociedade mais inclusiva, me dei conta do quanto cada um dos esforços e cada uma das conquistas dos meus pais, dos meus irmãos, do meu sobrinho e mesmo as minhas, modificaram e determinaram quem sou…
E tenho cada vez mais forte a convicção de que para estar à altura deste trabalho e desta secretaria é preciso exercer todos os dias e com muita atenção o verbo que me guia. Aprender, afinal, é verbo pra vida toda.
Nosso aprendizado sobre educação inclusiva ainda passa por conjugar mais, por compreender, por discernir, por dispor e disponibilizar. Passa por respeito e por vontade. E também por tempo… que nos permite entender a palavra dos que a pronunciam com outro tempo de entonação. O tempo que nos solicita o movimento e que nos acompanha e nos ensina a tatear o caminho. E o olhar.
Posso dizer que as escolas públicas de São Paulo buscam este tempo. E eu também.




